Conhecimento

A restauração ecológica exige rigor técnico e execução precisa

A restauração ecológica em larga escala exige rigor técnico e execução precisa. Para além de logística, viveiros e operações em campo, ela resulta da capacidade de interpretar a floresta original: sua história, suas funções e trajetórias possíveis. E, principalmente, da habilidade de traduzir esse conhecimento em decisões técnicas que façam sentido em territórios profundamente alterados.

Neste artigo, baseado em entrevista com nosso Gerente de Restauração e P&D, Dimitrio Schievenin, você vai conhecer alguns dos métodos e etapas da aplicação desse conhecimento ao processo de restauração ecológica da Biomas.

O primeiro passo é compreender o funcionamento do ecossistema que se pretende restaurar

Antes de qualquer intervenção, é preciso entender qual é o ecossistema de referência e como aquela floresta se recuperaria naturalmente, explica Dimitrio Schievenin. Esse estudo da trajetória natural é feito tanto utilizando a literatura especializada como levantamentos em campo.

Com base nesse diagnóstico inicial, é possível prescrever ações que aceleram processos que levariam décadas para ocorrer na natureza. Esse é o caso sobretudo de áreas muito degradadas, que tendem a se estabilizar em estados de baixa biodiversidade e baixo acúmulo de carbono.

As decisões que guiam o plantio também derivam desse primeiro diagnóstico. A seleção de espécies e o manejo ao longo dos anos devem estar voltados a um objetivo central: garantir a previsibilidade necessária para recuperar os ecossistemas e assegurar a captura de carbono.

O entendimento científico se converte, na prática, em diretrizes claras para o campo. É a partir dele que se definem o conjunto de espécies (ou mix) a ser utilizado e a lógica da sucessão ecológica, isto é, uma sequência de plantio que garanta a germinação, crescimento e a gradativa substituição das espécies pioneiras (de recobrimento) por variedades que representem a diversidade biológica do ecossistema e a sua perpetuidade.  

Essas escolhas determinam o sucesso da restauração para florestas mais diversas, mais resilientes e com maior capacidade de fornecer serviços ecossistêmicos, incluindo o estoque e a manutenção de carbono ao longo do tempo.

Com essa abordagem, a recuperação se torna mais eficiente e gera conhecimento novo para viabilizar operações em grande escala. Na Biomas, a restauração é integralmente orientada por ciência e evidências e tem objetivos claros: máxima biodiversidade, maximização de serviços ecossistêmicos e máximo acúmulo de carbono.

A definição do mix de espécies é uma das etapas mais sensíveis da restauração

Uma das premissas da restauração ecológica é trabalhar com espécies nativas para recuperar o equilíbrio do ecossistema. Para definir o conjunto de espécies a ser utilizado, é preciso verificar quais delas ocorrem em cada microrregião. Na Biomas, a adequação das espécies ao local é um critério inegociável e a seleção exige olhar atento às diferenças, ainda que pequenas, da paisagem.

Dimitrio Schievenin enfatiza que também é preciso garantir que essas espécies possam ser cultivadas adequadamente. A viabilidade de produção é parte central da decisão, já que a restauração em larga escala demanda volumes altos, consistentes e replicáveis de sementes e mudas.

Com a lista de espécies definida, entram em cena os critérios funcionais. Nosso Gerente de Restauração e P&D conta que, para garantir tanto a estrutura inicial quanto a longevidade da floresta, as espécies são organizadas em dois grandes grupos: as de recobrimento e as de diversidade.

As espécies de recobrimento, que geralmente têm crescimento rápido, são as responsáveis por criar as primeiras camadas de sombra, modificar o microclima e reduzir o avanço de gramíneas invasoras.  

O segundo grupo é composto de espécies mais lentas e longevas, que necessitam do ambiente sombreado criado pelas de recobrimento. São elas que garantem a estabilidade da floresta no longo prazo e sua diversidade biológica.

Espécies com diferentes funções viabilizam o equilíbrio ecológico

O mix final também incorpora espécies selecionadas por outras funções essenciais. Algumas contribuem diretamente para o acúmulo de carbono nas diferentes fases do desenvolvimento da floresta. Outras, cumprem papéis ecológicos estratégicos.

É necessário incluir, por exemplo, variedades que possam atrair espécies animais dispersoras de sementes, processo que pode ocorrer de diversas maneiras. Macacos e algumas aves espalham sementes enquanto se alimentam. Já as antas o fazem ao defecar, em geral longe do local onde o alimento foi encontrado. Esquilos e ratos do campo, por sua vez, escondem sementes para consumo futuro como estratégia de armazenagem. E assim por diante.

Outras espécies são valiosas para a restauração por sua capacidade de enriquecer o solo por meio da fixação biológica de nitrogênio, um processo mutualístico entre determinadas plantas e bactérias presentes no solo. A planta fornece carboidratos (açúcares) para as bactérias, e, em troca, estas fornecem o nitrogênio fixado já na forma aproveitada pelo vegetal, essencial para o crescimento das plantas.  As espécies mais conhecidas por essa característica são as da família de leguminosas, como os angicos e os ingás.

Independentemente da função, todas as escolhas seguem a mesma lógica: criar uma floresta capaz de se estruturar, se perpetuar e se adaptar aos desafios futuros sem depender de novas intervenções humanas.

Na Biomas, o monitoramento é visto como um processo de diálogo com o ecossistema em recuperação

Para garantir que a floresta avance rumo à sua plenitude, é essencial acompanhar de perto a evolução da área restaurada. Conforme o planejamento, a dinâmica sucessional em que as espécies pioneiras gradualmente abrem espaço para as de diversidade é monitorada e há marcos especialmente relevantes, como três, cinco e dez anos de vida do projeto.

O monitoramento utiliza indicadores que revelam, de maneira clara, a vitalidade do sistema. Juntos, esses elementos ajudam a identificar o ritmo da recomposição ecológica:

  • A cobertura por vegetação nativa, que mostra o sombreamento e a formação da estrutura inicial;
  • A densidade de indivíduos que nascem espontaneamente, que indica a capacidade da floresta de se regenerar por conta própria;
  • A riqueza desses regenerantes que, por sua vez, aponta o nível de diversidade que está emergindo no sub-bosque.

Caso estes resultados fiquem aquém do esperado, é feito o manejo adaptativo, que pode incluir o reforço de determinadas espécies, ajustes de densidade ou outras intervenções que garantam a continuidade da recuperação do ecossistema. A restauração é um organismo vivo e as decisões baseadas em monitoramento são essenciais para garantir a formação de uma floresta diversa, estável e capaz de acumular carbono no longo prazo.

A fauna também é monitorada desde o diagnóstico inicial, antes mesmo do plantio. À medida que a floresta se recupera, espera-se que animais generalistas, típicos de ambientes degradados, deem lugar a espécies mais sensíveis e associadas a florestas maduras. Esse avanço é percebido quando animais como a anta, que dependem de ambientes mais preservados, começam a retornar.

“O monitoramento ecológico contínuo permite identificar padrões, responder rapidamente a desafios e fortalecer a resiliência da floresta frente às mudanças climáticas” – Dimitrio Schievenin, Gerente de Restauração e P&D da Biomas

Em eventos extremos, como secas severas, o monitoramento mostra quais espécies resistem melhor e oferece pistas valiosas para aprimorar futuras prescrições de restauração. São essas lições que fortalecem a capacidade da Biomas de ampliar resultados e levar soluções robustas para novos territórios.

Território como ponto de partida e a ciência como caminho: o caso do projeto Muçununga

O Projeto Muçununga está recuperando 1.200 hectares de Mata Atlântica no sul da Bahia e é um exemplo de como a ciência aplicada deixa de ser um princípio abstrato e se transforma em decisões concretas.

Dimitrio Schievenin explica que, dentro do território do projeto, existem condições ambientais muito distintas, com variações de umidade, proximidade do litoral, tipos de floresta, clima e solo. Essa heterogeneidade impede soluções genéricas e exige compreender com precisão o ambiente antes de definir a prescrição de restauração.

Assim, é o conhecimento da área que orienta as escolhas adequadas a cada situação. Em regiões com estação seca definida, por exemplo, espécies como peroba ou jequitibá-rosa respondem melhor, uma vez que são resistentes ao período de baixa umidade. Áreas mais úmidas, influenciadas pela brisa litorânea, por sua vez, pedem variedades como a sapucaia ou a juerana-vermelha, que são dependentes de maior disponibilidade hídrica.

O Muçununga também é um exemplo de como, em nossos projetos, a lista de espécies utilizadas cresce na medida que aumenta nosso conhecimento do terreno. Dimitrio Schievenin relata que o mix inicial contava com cerca de 70 espécies, mas foi se ampliando conforme novas espécies com bom desempenho ou potencial ecológico foram identificadas na área. Como resultado, explica, “já estamos usando mais de 85 espécies nativas”.

A iniciativa mostra, na prática, que restaurar em escala significa calibrar decisões com o maior grau de precisão possível, considerando todas as variáveis ambientais e ecológicas da área de interesse e transformando conhecimento técnico em ação.

O que o Projeto Muçununga ensina sobre o papel do conhecimento no futuro da restauração

O Projeto Muçununga se tornou um dos maiores laboratórios a céu aberto da Biomas. A combinação entre declives acentuados, solos desafiadores e variações climáticas em curtas distâncias impôs situações complexas tanto para a operação quanto para a performance das espécies.

Restaurar uma área com essas características significa lidar com incertezas e testar soluções em condições muito específicas. Cada decisão tomada, espécie que responde de maneira inesperada e ajuste no manejo alimentam um repertório técnico que rapidamente se transforma em conhecimento aplicável a projetos futuros.

Entre os aprendizados mais valiosos está a compreensão de como diferentes espécies se comportam em ambientes extremos. Para Dimitrio Schievenin, “o Muçununga nos mostra que restaurar também é aprender continuamente. Cada área que recuperamos deixa lições valiosas sobre resiliência climática, redução de custos e acúmulo de carbono”.

A ciência é a única ponte possível entre áreas degradadas e ecossistemas reconstituídos

A experiência adquirida em nosso primeiro projeto consolidou uma visão abrangente sobre o papel da ciência na restauração em grande escala. Aliada ao conhecimento prático e ao compromisso com a resiliência do ecossistema, ela nos mostra o caminho para antecipar cenários climáticos cada vez mais críticos e entender como as florestas podem persistir em um futuro mais quente e, possivelmente, mais seco. 

São essas lições que fortalecem a capacidade da Biomas de ampliar resultados, levar soluções robustas para novos territórios e confiar na restauração ecológica como um dos caminhos mais promissores para o combate às crises do clima e da biodiversidade.